Criar cabritos

janeiro 23, 2011

manias estranhas Passava dias e dias sem abrir seu correio eletrônico, mas, de repente, quando já estava na cama preparada para dormir, era dominada por um pensamento obsessivo: tenho que ler meus emails, tenho que ler meus emails… Na realidade era algo bem pessimista que sentia. Talvez por viver longe da maior parte das pessoas que lhe eram importantes. Ela queria ter certeza que nenhuma desgraça havia acontecido, para assim poder dormir em paz. O que não faz muito sentido. Afinal, é melhor ir dormir em paz e deixar potenciais notícias desastrosas para o amanhecer. Mas quem disse que ansiedade crônica espera por amanheceres?
Hoje, mais uma vez, não havia nenhuma tragédia a espera na caixa postal. Porém,  recebeu algo que a fez pensar na sua (des)graça de querer ser escritora. Uma amiga lhe escreveu perguntando por que a decisão de se dedicar profissionalmente a escrita. A primeira coisa que veio à sua cabeça meio paranóica foi: “Será que ela tá me perguntando isso por que na realidade pensa que eu não tenho talento? Ou por que eu publico quase nada do que faço?”
Interpretou a pergunta na defensiva porque sabia que seu comportamento não condizia com o de uma escritora: ainda escrevia muito pouco. Mas, para conseguir dormir, teve que escrever alguma resposta-rascunho em seu diário. A qual foi a seguinte:

Eu decidi ser escritora porque não encontro nada que combine com meu ideal de realização profissional. Eu decidi ser escritora porque acho que, acima de tudo, não consigo fazer outra coisa melhor do que escrever. E se já escrevo mal, imagina como faço as outras coisas. Uma catástrofe (no sexo nem tanto!) ! Eu decidi ser escritora porque se eu não virar escritora, terei que virar puta. Ou uma “puta da economia” – vendendo todo dia 8 horas de meu tempo por um trabalho que não gosto e que provavelmente não vou fazer bem – ou uma puta-puta”. Mas isso não funcionaria para uma filha de beata, sobrinha de padre e ministros de eucaristia! hahaha
Finalmente, eu acho que decidi ser escritora porque ainda não virei uma escritora mesmo e ainda não perdi minha última esperança de profissão.
Não. Minto. Criar cabritos é uma profissão também, né? Taí, é isso! Eu decidi ser escritora porque ainda não decidi criar cabritos!

E fechou o diário, com o futuro aberto.

Ovelhas pastam felizes, sem medo do abatedouro.

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Uma questão de procedimento

setembro 17, 2010

Ah, esqueci de comentar anteriormente. Ou foi o otimismo inicial. Pode ser que tudo fique parado por um bom tempo também. Sabe como é, né? A não-ação é também um modo de se manifestar.

Não sei se cabe a mim falar de terceiros. Contar sobre a Margot – um alter ego que migrou para a Alemanha, ou sobre a gestação de idéias revolucionárias-monogâmicas.  

Enquanto elas não chegam – e com esse comentário não pretendo pressionar ninguém -, compartilho algumas impressões. Ultimamente tenho prestado mais atenção nas coisas. Sabe essa paisagem repetitiva das quadras de Brasília? Então, é isso.

Parece tudo igual, mas não é. Adoro perceber essas pequenas variações. É como tirar uma foto do mesmo local dias a fio no mesmo horário. Mas hoje aconteceu algo, de fato, diferente.

Saindo do meu carro, no estacionamento do trabalho, atrapalhada pelo fio do mp3 enrolado na bolsa – o que dificultava  minha mobilidade – dei de cara com uma figura. Um homem, por volta de seus 40 anos, com camisa social de manga comprida, carregando um porta terno e vestido com um short vermelho. Sim.  Sabe aqueles shorts de jogadores de futebol da década de 80? Era esse. Não sei se, para o homem que o vestia, o short tinha alguma outra função social, mas para mim era um short e, o pior, da mesma cor do meu tênis.

Seria isso um sinal? Uma marca que nos identificava? Eu não o vi se aproximando (maldita tecnologia!). Levantei a cabeça e vi o short e a camisa social a três palmos de mim. Sorri e lhe desejei um bom dia. Assim, sem pensar. Sem susto e  sem hesitação. Um bom dia simples e  direto. E ele fez o mesmo. Como se a coisa mais natural do mundo fosse aquela situação, saudações entre despidos e não despidos. Não sei muito bem ao certo o que tudo isso quis dizer. As coisas não tem necessariamente que dizer alguma coisa, tem? Só sei que esse foi o meu primeiro bom dia do dia. Não me arrependo e olha que não costumo cumprimentar estranhos. Pelo menos os vestidos.