(Não) Adaptação

outubro 3, 2013

Decidiu que precisava procurar um fonoaudiólogo. Não acreditava ser possível que pensassem que era estrangeira em sua própria terra. Devia ter alguma deficiência no aparelho fonador, alguma coisa que a colocasse como alienígena nas rodas de conversa.

Lembrou-se que era uma questão recorrente. A experiência em outros países tinha ferido seu orgulho de falante/estudante de línguas: os franceses a respondiam em inglês e os espanhóis fechavam o semblante tentando entender o que ela dizia. No fim das contas, se comunicou melhor com os italianos, por não falar nada de italiano e ter poucas expectativas de entender e ser entendida.

No entanto, esse vínculo frouxo (afinal, a linguagem não é a base de unidade dos povos?)  com a terra em que nascera e se criara era um indicativo de algo que lhe dava orgulho: a ideia de que não se enquadrava em nenhum lugar estava provada empiricamente, cotidianamente, todas as vezes que conhecia uma pessoa nova. Pensou em tirar partido da situação e inventar várias origens, até que se perdesse nas próprias histórias. Um dia podia dizer: “Sou venezuelana”; no outro, “Sou indiana, cheguei há dois anos no Brasil”. Ia ser bom, até elogiariam seu português.

Pareceu um bom plano. Definitivamente melhor do que ir treinar trava-línguas em algum consultório. No fim, decidiu que seria apátrida. Imaginou a cena: depois de uma breve conversa sobre um assunto qualquer viria a inevitável pergunta:

– De onde você é?

E a resposta, seca, sem explicações, nem constrangimentos, com um largo sorriso no rosto:

– Sou de lugar nenhum. Tenha uma boa semana.