O que nos move

novembro 19, 2012

É intrigante observar o desespero. Uma das coisas que sempre me surpreende nele é o silêncio. É um não saber portar-se: as mãos, que antes agiam com naturalidade, passam a incomodar. Na tentativa de superar esse sentimento, alternam-se entre a boca e os cabelos, como se a inércia do movimento, num ritual talvez, fosse amenizar o desconforto.

É assim que vejo a minha vó ao lado do meu tio. Nessas horas parece que o ar fica mais espesso – é o que nos faz engasgar – e o cheiro mais pegajoso, impregnante. E, pelo avançar da idade, é possível identificar o momento exato em que a realidade se concreta. Foi num desses momentos que eu a encontrei, saindo do velório, e repetindo incessantemente a frase: “Perdi meu filho, perdi meu filho”.

Acho que foi a primeira vez que vi a minha vó chorando. Não tenho muitas lembranças do enterro do meu pai, o outro filho que também foi perdido no caminho, então se ela chorou aqui, não tenho como saber. E, nessas horas, a vulnerabilidade dela se torna a sua também. Sim, porque a sua impotência é tanta que não adiantam abraços, palavras ou afagos. Você é simplesmente insuficiente e não pode fazer absolutamente nada.

Passei 12 horas no carro ontem por achar que família é importante. A sensação, depois da  viagem, foi a de que me colocaram dentro de um carro, me levaram para Quirinópolis, me tiraram do carro, me deram uma surra e, por fim, me despacharam de volta para Brasília.  E eu acho que fui para lá justamente por saber que ia encontrar isso. Um esgotamento. Eu tenho uma necessidade quase masoquista de cansar o corpo. É como se eu precisasse sempre sentir para me perceber mais humana. E quando você sofre, você sente. É uma forma, quem sabe, de justificar a existência.

Ou talvez eu também tenha ido para mostrar – como um exemplo vivo – de que é possível superar esse tipo de perda. Lá estávamos os mais frágeis: a viúva, a menina e o caçula, justamente o mais novo, usando as nossas existências para provar que a dor é imensa, mas que tem um dia que ela passa e você consegue tocar a sua vida adiante. Que existe um momento que o ar volta fluir normalmente e que você volta a enxergar um propósito na vida. Que por mais dolorido que isso possa parecer, que a vida simplesmente continua. 

Então estávamos nós três lá, perdidos entre as coroas de flores, disfarçados pela poeira e nos misturando com a paisagem, tentando, com os nossos corpos, diminuir a dor deles.