O 美容師 e a manova

outubro 15, 2011

Tinha acordado naquele dia decidida a não pentear os cabelos, afinal a noite anterior tinha sido tão controversa que não seria possível perder tempo em domar os cachos que se descabelavam ao redor do rosto.  Todo o tempo disponível entre as tarefas do dia teria que ser dedicado a entender a questão pendente.

Almoçou correndo, depois de organizar algumas coisas em casa durante a manhã, calça, camiseta, sapato e um chapéu para encobrir a cabelereira alvoroçada. Já tinha prometido não usar mais seus chapéus como forma de esconder a confusão. Mas se permitiu, porque já havia tanta confusão naquele dia, os cabelos eram como uma moldura. O chapéu poderia ajudar a organizar coisas por dentro e por fora. Além do mais, ele também a ajudava a se esconder.

“Terminados” os afazeres do dia, na volta para a casa, passou na frente do salão de beleza japonês. Ela não queria pentear seus cabelos, mas não tinha problema nenhum se alguém penteasse por ela.

Entrou. Nada em português nas paredes. Na TV, uma novela em japonês tinha um velhinho que esperneava. Os cabelereiros estavam todos sentados e a sua entrada causou alvoroço na única pessoa que podia se comunicar com os profissionais e os habitués do salão. Falava japonês e alguma coisa de português. A recepcionista perguntou o que seria feito e ela respondeu: “uma escova”. Não queria os cachos por hoje, cabelos lisos, pra entrar no clima que o ambiente pedia. Ainda teve que confirmar que era “só uma escova mesmo, nada de corte”. Por alguns minutos sentiu alívio porque a moça que a atendeu depois da recepcionista era brasileira, sem dúvida, e os cabelos eram lisos por intervenção cosmética, nada a ver com herança genética.

Cabelos lavados, pediu que não passassem nada no cabelo para a escova não ficar muito lambida. Descobriu que não seria a brasileira sua cabelereira até o fim do processo.  Sentou-se na cadeira e a recepcionista voltou. Ao seu lado, um senhor japonês, bem magro, cabelos vermelhos, quase 40 anos, nenhum português, segurava o secador. A moça pediu as instruções de como seria a escova: “lisa e com as pontas para dentro”.  Com gestos e algumas palavras passou o recado e disse que estaria ali caso fosse preciso.  Na verdade, tão logo disse isso, desapareceu.

O processo começou. Uma secada rápida nos cachos molhados, separação em pequenas porções. Tudo normal. Primeira mecha separada para secar… secador em uma mão… nada na outra. É, estranho – pensou. Ele deve pegar… Não, não pegou e já está secando. Puxa pequenas porções e seca. Nossa! Como ele não queima a mão? Será que ele vai pegar a escova? Ah, vai sim, não é possível. É só nesse começo, meu cabelo é curto atrás. Um turbilhão de pensamentos se sucedem nesse primeiro minuto.

Vinte minutos depois, tudo igual. O cabelereiro primeiro separa um pouco de cabelo. Depois puxa com a mão, seca e puxa. Quando parece seco o suficiente, a escova passa e dá uma organizada nos fios puxados e repuxados. Vai demorar, pensou. Em situações normais, com um cabelereiro hábil, já estaria quase no fim da escova. Com um cabelereiro que usa a escova, mas não é muito hábil, estaria na metade do processo. Pensava em desistir, mas optou por não sair dali. Precisava praticar a paciência, decidiu entre a indignação e a curiosidade.  Tinha que descobrir em que momento a escova que dá a alcunha ao processo seria usada. Além do mais, não deixava de se surpreender com o fato de que o homem preferia queimar os dedos a usar o instrumento de trabalho mais corriqueiro para um cabelereiro.

Depois de quarenta minutos percebeu que o problema era a munheca. O cabelereiro não tinha nenhuma ginga na munheca. É, não tem jeito de usar a escova para modelar o cabelo. Vamos ter que ir com os dedos mesmo. O corpo dele se abaixava sempre que a escova estava empunhada, na tentativa de colocar as pontas pra dentro. Mas, convenhamos, não são os joelhos e tornozelos que vão resolver essa questão, senhor cabelereiro.

Será que ele fez um curso? Era a pergunta que não queria calar depois de uma hora sentada naquela cadeira. Só se foi no Japão, ele nem fala português! Percebeu que nenhuma das mulheres era atendida pelos cabelereiros, elas só faziam as unhas. Quatro homens já cortaram os cabelos… Estou sendo atendida por um barbeiro japonês! Não, barbeiros não ostentam um penteado assim. Pelo menos, eu nunca vi um barbeiro de cabelo vermelho… O problema é a origem do cabelo e a do profissional. Nada mais distante de um cabelo nipônico que um cabelo angolano. Será?

Uma hora e meia depois, tudo foi devidamente puxado. A moça brasileira do começo voltou para ajudar, com uns gestos, nos ajustes finais. No espelho, parece que tudo tinha funcionado, apesar de ter fugido do convencional. Arriscou um arigatô, mas ainda tinha dúvida se o salão e o cabelereiro eram japoneses mesmo. Tudo indicava que sim, mas vá saber. Pagou, sabia que tinha desperdiçado o dinheiro. Saiu do salão, colocou seu chapéu. Afinal de contas,  sem ele essa manova não vai durar trinta segundos!

A dúvida no caminho da volta era outra, nada a ver com a questão existencial da manhã. Será que o problema é mesmo a munheca? Ou é a questão da origem? E a mão? Como é que ele não queima a mão?

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2 Respostas to “O 美容師 e a manova”

  1. Cris Q said

    Até fiquei com saudades de fazer escova….

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