Parabéns! KRO, LP e STJ.

outubro 25, 2011

As duas primeiras siglas acredito que são os nomes das recorrentes do processo que o STJ julgou favorável hoje e que agora podem se casar! Não que eu seja casamenteira… mas essa decisão significa avanço em direitos civis e um passo além da visão tradicional da família cristã.

Enfim, é bom quando mais gente se torna sujeito de direitos e o Estado age como instutuição livre de amarras ideológicas.

Outra questão é o casamento. Eu até me meto, digamos, diariamente nela, e não tenho muito do que reclamar: Vivas às relações saudáveis e ao amor, já que nos o reinventamos!

Troca e dúvidas

outubro 18, 2011

1027 por 1?

O que essas cifras querem dizer? É uma hierarquia entre seres humanos? Ou é somente a prova final da diferença do controle israelense na região que deveria suportar dois Estados? E o mundo e as pessoas da região precisam de dois Estados ou é só um apego quase fundamentalista a uma primeira idéia? E de quem foi a idéia?  É importante lembrar que foi uma tentativa de amenizar as feridas geradas pelos horrores do regime nazista.

Será que o clima de mudanças trazido pelos movimentos sociais no mundo árabe e os 99% vão levar novos ares à Questão Palestina?

E os 99%? Será que esse é um momento de que se tenha uma melhor distribuição das rendas e riquezas?

O 美容師 e a manova

outubro 15, 2011

Tinha acordado naquele dia decidida a não pentear os cabelos, afinal a noite anterior tinha sido tão controversa que não seria possível perder tempo em domar os cachos que se descabelavam ao redor do rosto.  Todo o tempo disponível entre as tarefas do dia teria que ser dedicado a entender a questão pendente.

Almoçou correndo, depois de organizar algumas coisas em casa durante a manhã, calça, camiseta, sapato e um chapéu para encobrir a cabelereira alvoroçada. Já tinha prometido não usar mais seus chapéus como forma de esconder a confusão. Mas se permitiu, porque já havia tanta confusão naquele dia, os cabelos eram como uma moldura. O chapéu poderia ajudar a organizar coisas por dentro e por fora. Além do mais, ele também a ajudava a se esconder.

“Terminados” os afazeres do dia, na volta para a casa, passou na frente do salão de beleza japonês. Ela não queria pentear seus cabelos, mas não tinha problema nenhum se alguém penteasse por ela.

Entrou. Nada em português nas paredes. Na TV, uma novela em japonês tinha um velhinho que esperneava. Os cabelereiros estavam todos sentados e a sua entrada causou alvoroço na única pessoa que podia se comunicar com os profissionais e os habitués do salão. Falava japonês e alguma coisa de português. A recepcionista perguntou o que seria feito e ela respondeu: “uma escova”. Não queria os cachos por hoje, cabelos lisos, pra entrar no clima que o ambiente pedia. Ainda teve que confirmar que era “só uma escova mesmo, nada de corte”. Por alguns minutos sentiu alívio porque a moça que a atendeu depois da recepcionista era brasileira, sem dúvida, e os cabelos eram lisos por intervenção cosmética, nada a ver com herança genética.

Cabelos lavados, pediu que não passassem nada no cabelo para a escova não ficar muito lambida. Descobriu que não seria a brasileira sua cabelereira até o fim do processo.  Sentou-se na cadeira e a recepcionista voltou. Ao seu lado, um senhor japonês, bem magro, cabelos vermelhos, quase 40 anos, nenhum português, segurava o secador. A moça pediu as instruções de como seria a escova: “lisa e com as pontas para dentro”.  Com gestos e algumas palavras passou o recado e disse que estaria ali caso fosse preciso.  Na verdade, tão logo disse isso, desapareceu.

O processo começou. Uma secada rápida nos cachos molhados, separação em pequenas porções. Tudo normal. Primeira mecha separada para secar… secador em uma mão… nada na outra. É, estranho – pensou. Ele deve pegar… Não, não pegou e já está secando. Puxa pequenas porções e seca. Nossa! Como ele não queima a mão? Será que ele vai pegar a escova? Ah, vai sim, não é possível. É só nesse começo, meu cabelo é curto atrás. Um turbilhão de pensamentos se sucedem nesse primeiro minuto.

Vinte minutos depois, tudo igual. O cabelereiro primeiro separa um pouco de cabelo. Depois puxa com a mão, seca e puxa. Quando parece seco o suficiente, a escova passa e dá uma organizada nos fios puxados e repuxados. Vai demorar, pensou. Em situações normais, com um cabelereiro hábil, já estaria quase no fim da escova. Com um cabelereiro que usa a escova, mas não é muito hábil, estaria na metade do processo. Pensava em desistir, mas optou por não sair dali. Precisava praticar a paciência, decidiu entre a indignação e a curiosidade.  Tinha que descobrir em que momento a escova que dá a alcunha ao processo seria usada. Além do mais, não deixava de se surpreender com o fato de que o homem preferia queimar os dedos a usar o instrumento de trabalho mais corriqueiro para um cabelereiro.

Depois de quarenta minutos percebeu que o problema era a munheca. O cabelereiro não tinha nenhuma ginga na munheca. É, não tem jeito de usar a escova para modelar o cabelo. Vamos ter que ir com os dedos mesmo. O corpo dele se abaixava sempre que a escova estava empunhada, na tentativa de colocar as pontas pra dentro. Mas, convenhamos, não são os joelhos e tornozelos que vão resolver essa questão, senhor cabelereiro.

Será que ele fez um curso? Era a pergunta que não queria calar depois de uma hora sentada naquela cadeira. Só se foi no Japão, ele nem fala português! Percebeu que nenhuma das mulheres era atendida pelos cabelereiros, elas só faziam as unhas. Quatro homens já cortaram os cabelos… Estou sendo atendida por um barbeiro japonês! Não, barbeiros não ostentam um penteado assim. Pelo menos, eu nunca vi um barbeiro de cabelo vermelho… O problema é a origem do cabelo e a do profissional. Nada mais distante de um cabelo nipônico que um cabelo angolano. Será?

Uma hora e meia depois, tudo foi devidamente puxado. A moça brasileira do começo voltou para ajudar, com uns gestos, nos ajustes finais. No espelho, parece que tudo tinha funcionado, apesar de ter fugido do convencional. Arriscou um arigatô, mas ainda tinha dúvida se o salão e o cabelereiro eram japoneses mesmo. Tudo indicava que sim, mas vá saber. Pagou, sabia que tinha desperdiçado o dinheiro. Saiu do salão, colocou seu chapéu. Afinal de contas,  sem ele essa manova não vai durar trinta segundos!

A dúvida no caminho da volta era outra, nada a ver com a questão existencial da manhã. Será que o problema é mesmo a munheca? Ou é a questão da origem? E a mão? Como é que ele não queima a mão?

Apesar do absurdo que é uma pessoa jovem e que representa uma nova geração de comediantes brasileiros ser tão preconceituosa, não quero falar sobre o humorista branco que anda por aí demonstrando toda a sua “hombridade”. A idéia é pensar como a mídia e as pessoas defendem posturas como essa do Rafael Bastos.

Gosto de ler os comentários sobre as notícias. Por ali dá pra se ter uma idéia do que se pensa sobre o assunto. Certamente não se esgotam as opiniões, em geral, quem se esgota é o leitor, tentando entender mensagens indecifráveis e super-ultra-mega-preconceituosas.

Para todas as piadas dos nossos novos comediantes que são acusadas de desrespeitarem  minorias aparecem três tendências. Uma delas é de indignação, em favor de que se puna esse tipo de humor misógino, racista e homofóbico. A outra é a defesa de que é só piada, não se tem que levar a sério, afinal, “O cara tava só brincando…”. A última aparece em textos jornalísticos e se reveste da ideia de proteger a liberdade de expressão. Neste caso, a percepção é de que os pobres humoristas estão sendo perseguidos, tolhidos e censurados pelo politicamente correto.

Podemos dizer que pegaram o politicamente correto pra bode expiatório e tudo o que as pessoas fazem que é preconceituoso ganha uma aura de enfrentamento a um código de comportamento vazio de sentido. O problema não é achacar os outros para reafirmar uma posição de poder ou uma normalidade normativa. Pensa-se que o problema é a crítica. Afinal,  se não fosse o politicamente correto, toda essa comoção nem existiria… E toda aquela questão do discurso como recurso de poder e de construção de realidades se perde assim, na curva da vírgula de jornais e revistas. Será que os caras entendem qual é o papel que desempenham?

Ainda que muitas das piadas continuem seguindo o padrão tradicional de humor – afinal não há nada mais engraçado que mulheres estúpidas ou homossexuais em qualquer situação imaginável -, o público desses humoristas e os próprios comediantes vão precisar mudar a razão da risada. Toda a reação aos programas de humor mostra que há um processo de amadurecimento das demandas das minorias e que não é mais válido fazer troça de hierarquia e de desigualdades.

Talvez um dia um comediante comece a piada assim: “Tem aquela do humorista que achava engraçado ser escroto com mulheres…”