Cães, especismo e coisas afins

agosto 8, 2011

São engraçadas as limitações que a gente tem. Uma limitação sentimental que eu tenho e que atualmente deve soar absurda, já que há um modismo pró-bichos: eu não tenho afeição por animais irracionais. É… eu não gosto de cães, gatos, peixes e outros seres vivos que vêm fazendo a alegria dos donos de pet shop Brasil e mundo afora. Na verdade, acho muito incoveniente ter que andar por aí pulando cocô de cachorro pra cá, ser recebida pelos latidos dos cachorros dos vizinhos pra lá, voltar pra casa com pêlo de bicho porque os nossos amigos têm o seu xerimbabo.

Sempre que há um tema que comove muita gente nascem assuntos conexos… é a natureza complexa das coisas.  Sabe o que é especismo? Eu também não sabia, mas existe. É como se fosse um racismo contra espécies. Então, pensemos. Uma pessoa que adora seus animais, gasta uma grana preta nas famigeradas lojinhas especializadas, cuida com todo amor e carinho do seu bichinho, mas não recusa aquele belo bife, medalhão, filé está praticando um tipo de preconceito. Enquanto trata bem uma espécie, acha válido alimentar-se das outras, apesar do tratamento vil que elas recebem dos seus produtores. Como você está em relação a esse preconceito? Eu não tenho tido problema com ele, afinal mantenho a mesma consideração com as vacas e o cachorro maltês ou vira-lata ao lado.

Apesar de ser o especismo que mais preocupa as pessoas, tem outra coisa envolvendo a ascendência e descendência de cães e gatos que me deixa reflexiva. Atualmente, considera-se o animal uma pessoa, na verdade, trata-se melhor que muitas pessoas pelo mundo (e aqui talvez eu esteja cometendo especismo…), já que muitos são mais bem cuidados que muitas crianças soltas por aí, mas se pratica algo que condenamos. O mundo inteiro voltou-se contra os nazistas defensores da raça ariana pura, o apartheid da África do Sul foi condenado pelas Nações Unidas e por toda pessoa minimamente consciente, mas não se fala muito do processo de controle de raça que cotidianamente os donos de cães fazem. “Por favor, tire esse seu bassê do lado da minha poodle ou teremos um problema!”, posso imaginar alguém dizer. O fato é que por mais que as pessoas afirmem o apego sentimental pelos bichos, usem pronomes pessoais com eles e mantenham parte do orçamento e da casa para eles, eles são vistos como coisas, uma propriedade cujo valor precisa ser mantido… é mais uma das incongruências da vida e das sociedades. E por mais que exista uma onda de “ah, nós cuidamos dos vira-latas também”, as pessoas ainda querem comprar e comprovar o pedigree dos seus animais, já que defender publicamente o próprio sangue azul soa retrógrado numa sociedade pós-moderna.

Além dessa questão, tem uma outra que tem me atormentado mais recentemente. Eu não sei se o mundo anda mesmo tão monótono (é improvável), ou se as pessoas perderam mesmo tanto o seu valor (mais plausível), que os jornais precisem de notícias trágicas sobre animais para encherem suas páginas. Dia desses, por acaso, me deparei com a notícia do Giginho, um cachorro que morreu enforcado em um pet shop em São Paulo. Hoje, de novo, para mostrar que é uma tendência crescente, uma notícia sobre um cachorro que foi arrastado pelo carro do seu dono por 400 metros. No link dessas, havia outros relatos de problemas envolvendo os animais de estimação de alguém. Tem até o caso da veterinária que não sabe o que fazer da vida depois que o seu cão foi roubado. Ela até emagreceu!

Eu não acho nada demais que as pessoas amem seus bichinhos, e que cuidem deles, o que é difícil engolir é que em um país e um mundo tão desiguais seja possível que paremos para discutir os infortúnios caninos, enquanto os feitos cotidianos dos nossos semelhantes e seus infortúnios parecem menores frente aos novos cidadãos que colocam suas patas num território de cidadanias partidas por perdas e preconceitos, de todo jeito e cor. A campanha “torne uma criança seu pet” pode soar desprezível, mas eu penso em quantas crianças não aceitariam casa, comida balanceada, todas as vacinas, visitas periódicas ao médico e desvelo sentimental… e eu não estou querendo dizer que crianças são como cachorros (bem longe disso), só estou querendo entender porque os da nossa espécie vêm nos parecendo cada vez mais tão desprezíveis.

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3 Respostas to “Cães, especismo e coisas afins”

  1. Cris Q said

    Cabeça, você tem que parar de ler a seção “bichos” da folha…

  2. Layla said

    Eu parei de ler a folha… mas aí assistindo ao jornal da record no horário nobre, o que eu vejo? Um especial só sobre os donos e seus bichinhos… viu, é um problema generalizado!

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