Da mesma forma que tem dias que a gente perde a fé no universo, em outros a gente tem a certeza de que tudo vai der certo. Muito obrigada a todos e todas que participaram e, em especial, a Carol do blog : www.projetoeusougay.wordpress.com.

http://www.youtube.com/watch?v=mU3AFlThrdk&feature=player_embedded

Vocês definitivamente fizeram o meu dia mais feliz!

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Eu tenho medo de gente

julho 5, 2011

Ultimamente não tenho sentido vontade de escrever. Mas algumas coisas pedem para serem escritas. Então vamos a elas.

Sábados pela manhã tenho aulas de krav maga. Para quem não sabe, é uma defesa pessoal israelense que tem como principal objetivo você se livrar da agressão. Se for pra correr, corre e se for pra bater que seja efetivo. Lá a gente aprende a furar o olho e a dar chute no saco, literalmente. E para mim a virtude do krav maga é exatamente essa: ao focar a agressão em pontos sensíveis – que são sensíveis em qualquer pessoa – ele possibilita, ou pelo menos prega a ideia de que todos podem ser iguais ou, mais especificamente,  de que todos podem se defender igualmente. Independentemente de sexo, força, altura, peso, músculos, etc.

Um detalhe importante. Por ser israelense, foi criada por um judeu, certo? Certo. O nome do cara é Imi Lichtenfeld e ele criou o krav maga na época da 2a Guerra Mundial. Coincidência? Claro que não.

Mudando de cenário. Segunda de manhã, trabalho, conversa com as colegas para saber do final de semana. Uma amiga minha estava num bar na asa norte com outras amigas e entra elas um casal de lésbicas que, em determinado momento, se deram um selinho. Nesse exato momento, surge um cidadão e as adverte com as seguintes palavras: “se vocês não se comportarem eu vou dar uma facada em cada uma. Eu moro aqui em cima e eu pego uma faca e mato vocês”. Não preciso nem contar que a diversão acabou naquele momento. E o cidadão sobe para a casa dele e volta com um bebê de colo que apresenta a todas e todos como a sua filha.

Pausa para reflexão: o que leva a uma pessoa ameaçar de morte outras duas pelo simples fato delas serem homossexuais? Não que isso não me assuste, assuta. Mas a gente já sabe que, infelizmente, essa é uma atitude um tanto quanto comum. Vide os últimos episódios da avenida paulista. Mas, como se isso já não fosse o suficiente, ele ainda informa para quem quiser ouvir onde  mora e faz questão de apresentar sua filha. Um cara desse, ao agir dessa forma, só pode ter a certeza de que a sua atitude é legitimada por todo o resto da sociedade.  E para provar isso, mostra a sua filha como uma espécie de troféu. Isso sim me apavora. Ainda bem que eu faço krav maga, né? Antes fosse simples assim….

Voltando para a minha aula de sábado. Em 2011 faz 10 anos que o krav maga é ensinado em Brasília. E, em razão dessa importante data, uma série de comemorações serão feitas. Entre elas, um livro com a foto dos/as alunos/as será publicado com um pequeno parágrafo ao lado dizendo do porquê ou da importância de se fazer krav maga. As sessões de foto serão na próxima aula. E a instrutora pedia gentilmente que cada um escrevesse as 10 linhas para serem anexadas ao lado da sua foto treinando.

Em seguida e sem entender muito bem o porquê, a mesma instrutora começa a falar que nunca viu tantos gays em novelas da globo e que isso só pode estar acontecendo porque ser gay está na moda. Na verdade a fala era a introdução da história que viria em seguida. Contudo, antes de contar a história, um dos alunos comentou que ultimamente todas novelas da globo tinham também algum espírito. A instrutora, sem dar muita atenção a esse comentário esdrúxulo, comentou rapidamente: prefiro ver espírito a homossexual.  

A história: Um cara, visivelmente homossexual – porque o problema não é ser homossexual, mas parecer homossexual – , chegou na academia dizendo que queria treinar.  A instrutora – sem o desrespeitar nem nada – disse que tinha uma turma de iniciantes muito boa para ele. Uma turma em outra academia, com outro instrutor. E contava para gente que estava colada no celular esperando o outro instrutor ligar, certa de que ouviria a sua indignação com o novo aluno. E, por fim, se gabou da sua vingança com o tal instrutor.

Tava bom por aí, né? (Quase)todo mundo riu e voltamos para o treino. Por algum outro motivo ela veio conversar comigo, ainda sobre o tema. Disse a seguinte frase: “O que eu não entendo são esses nazistas que querem bater em judeus. Nada a ver você querer bater em alguém só por causa da religião, né?” A minha única resposta – que nem sei se ela ouviu – foi: qualquer tipo de preconceito é foda.

Mais uma vez, o que me assusta não é o fato dela pensar assim. Mas sim, dela não achar certo bater em alguém por causa da religião e essa mesma lógica não se aplicar a outras características das pessoas. Ter preconceitos contra judeus não pode, mas contra homossexuais pode, é isso? Qual a lógica de um pensamento desse? Como alguém que se identifica com algum tipo de minoria – os judeus são minorias, não são? – propaga a intolerância contra outros grupos minoritários? Não tinha que rolar alguma solidariedade? Eu até entendo um homem-branco-hétero ter raiva de gays – afinal ele está no topo da cadeia de  dominação -, mas uma mulher que pratica e ensina uma defesa pessoal que nasceu justamente em razão do discurso de ódio propalado por uma raça que se dizia superior? Falta alguma conexão, não?

Mas tudo bem vai, muitas minorias não se solidarizam com outras. E ética e respeito aos direitos humanos a gente não vê muito mesmo por aí. Porém, nem a lógica do mercado é capaz de calar esse tipo de pensamento. Pensa comigo: utlimamente os casos de violência contra homossexuais têm aparecido mais na mídia – alguns dizem que têm aumentado – eu duvido, só acho que têm tido mais denúncias e espaço para a discussão. E o krav maga ensina o que mesmo?

       “Década de 1940: guerra, violência e morte. Era urgente o surgimento de um  meio de se manter vivo. Os mais fortes, com um pouco de sorte, sobreviviam, os outros morriam. Fruto da necessidade básica de sobrevivência, o Krav Maga nasceu em meados dos anos 40 pelas mãos de Imi Lichtenfeld (Z”L) em Israel (…) Com esta conclusão, que a nós parece óbvia, decidiu criar uma técnica corporal e espiritual que seria eficiente para qualquer um, independente de força ou preparo físico, idade ou sexo, defender sua vida com aquilo que possuía, sua mente e seu corpo (www.kravmaga.com.br).”

A relação só parece óbvia para mim? Nicho de mercado! Não? Não. Melhor ser intolerante e fazer piada sobre o assunto. Enfim, não tenho a mínima intenção de aparecer no livro de 10 anos de krav maga, mas segue aqui a minha motivação em aprender essa defesa pessoal:

Querida instrutora, eu faço krav maga para me defender de pensamentos iguais ao seu.