Ela era assim

maio 10, 2011

Ela era assim, usava anéis de vários mil reais com a naturalidade de quem pede um café no bar da esquina. Não é exatamente isso o que eu quero dizer. Ela não estava acostuma com as jóias. Na verdade ela só tinha uma. Talvez por isso a habilidade de usá-la em qualquer lugar. Se ela tinha, qualquer um podia ter – era isso o que ressoava em seu interior. Não preciso dizer a vocês que esse pensamento estava errado. Qualquer bom leitor sabe que a grande maioria de nós – brasileiros e brasileiras – não usamos jóias.

Ela, até um tempo atrás, também não usava.  Recebeu o anel como quem recebe um filho adotivo, com todo o amor possível e a convicção de que a relação dará certo. E, para provar que o aceite havia sido a decisão correta, o usava indistintamente. Por isso ela era vista em butecos de beira de estrada com o anel.

Seria essa a distinção dos ricos? A pompa ao usar adereços em moeda estrangeira? É possível. Ela não se adaptou ao anel. O anel que teve que se acostumar à rotina da casa, ao cachorro quente do final de semana, ao criado mudo de madeira. O anel foi acolhido, sem questionamentos, sem preconceitos.

Eu a via por aí, eventualmente. Não eramos tão próximas, mas possuímos  certa familiaridade: acompanhámavos os passos uma da outra com alguma facilidade. Pensei nisso tudo a última vez que a vi. Foi num domingo, num fim de tarde. O brilho que me chamou atenção. Dela. O anel? Sim, ele estava ali, mas como se sempre estivesse estado e só agora eu o tinha notado. Ela era assim…….