Verde Oliva III

fevereiro 14, 2011

Pouco depois, percebeu que a gosma verde não brilhava entre os seus dedos da mão, mas numa patinha preta que se estendia até o seu tronco. Com o susto, olhou-se finalmente no espelho já que ao entrar no banheiro não pudera se encarar porque o sapo a interrompeu. Ana viu que era uma forma de vida kafka-raul-seixas-david-cronenbergniana. Depois do deslumbramento inicial lembrou-se do sapo rosa, pronto a comê-la, e resolveu bater asinhas pelo banheiro enfrentando o anuro. Sabia que as aulas de krav magá iriam ajudar. A primeira coisa a fazer era atrapalhar a visão do bicho. Usou as técnicas e neutralizou o inimigo cor-de-rosa. Escapou pela fresta da porta e resolveu sair por aí a zumbizar…

Foi direto para a casa do vizinho e atrapalhou-o na sua soneca vespertina. “Como alguém consegue dormir com a música tão alta?”, pensava enquanto sobrevoava as orelhas e o nariz do homem. Em outro apartamento pôde ouvir as razões para a partida de um dos amantes e o choro contido do casal… ser mosca tinha ampliado sua percepção do sofrimento dos outros.  Na próxima casa viu uma torta ser preparada com bastante alegria, entre assovios e versos esparsos de canções diferentes. O rapaz já tinha colocado o primeiro andar do bolo sobre um belo prato de cristal e preparava o recheio – um creme branco pontilhado por pequenas framboesas. A combinação do marrom da massa do bolo, o branco do creme, o vermelho das frutas e a decomposição da luz nos detalhes do prato deslumbraram a mosca Ana, que resolveu sentar para admirar a beleza daquela viagem culinária. Fez silêncio para evitar ser enxotada da cozinha alheia e viu a colocação do creme, do próximo andar de massa e a finalização da torta com um merengue bem aerado e abundante, que dava a ela uma sensação profunda de maciez. O toque final foi uma chuva de pedacinhos de manga e amora. Ana sentiu que queria participar e deu rasantes na chuva de frutas…

Depois daquilo quis voltar pra casa e preparar um chá, afinal torta costuma combinar com chá pra dar uma quebrada no doce. Subiu alguns andares e se pôs a preparar um chá de laranja com canela. Assoviou algumas músicas e com a mesma alegria do dono da torta escolheu uma bela garrafa verde oliva  para o chá, colocou umas pedras de gelo, arrumou os cabelos e desceu, disposta a dividir a torta com o vizinho. Ela ofereceria o chá e uma história; ele, a torta.

Verde Oliva 2

fevereiro 4, 2011

Tentou cantarolar Strawberry fields forever, a única música da qual se lembra da letra nesses momentos. Mas percebeu que havia perdido a voz. Atender ao telefone sem voz ou não atender deixaria sua mãe precupada de qualquer jeito. Melhor sentar-se um pouco, fechar os olhos e não pensar em nada. Mas uma mistura sons desconhecidos invadiu sua mente. Não conseguia controlar seus pensamentos e sentiu sua pele queimar como brasa. Correu ao banheiro para lavar o rosto e tentar se acalmar.

Um sapo rosa a esperava sentado na tampa da privada e a cumprimentou como se dividissem o mesmo teto. “Hoje o mar não tá pra peixe, né, Ana?”. Agora é que sua voz nunca mais voltaria. Pensou que essas coisas só acontecessem nos livros do Murakami, os quais lia sempre como desculpa para deixar a tese pra depois. Mas não, ela não estava lendo agora. E à sua frente realmente havia um sapo rosa de quase um metro e oitenta, sentado na tampa vaso, na posição de lótus de yoga e ainda usando esses ditos populares, que a irritavam tanto, pois lhe lembravam de seu pai..

“Eu sei que você tá com medo de ver um sapo falante. Sei também que poucos falam sobre encontros no banheiro com sapos rosas que falam. Mas eu tou aqui para comer a mosca.” “Que mosca?”, pensou Ana. O sapo rosa lia seus pensamentos. “Você ainda não percebeu? A mosca que tá roubando suas palavras e emoções. A mosca dentro de você, que tá te deixando oca.” “Pois então, querida Ana, você tem poucos minutos pra fechar todos os ralos e bloquear todas as possibilidades de fuga da mosca. O resto é comigo. Pode confiar.”

Sem opção, ela cumpriu as ordens do sapo. E depois, quase sem ar, tossiu fortemente. Na sua mão apareceu uma gosma grossa e verde oliva.