Verde Oliva

janeiro 28, 2011

Ela ouvia a música do apartamento vizinho. Não conseguia mais escrever sobre o que tinha se proposto. Era como se as letras simplesmente não aparecessem na tela. Estava desorganizada.

Sabia ao mesmo tempo que tinha um quê de autoritarismo. Afinal, sua rádio favorita era a do Exército.  Isso constrastava com todo o resto: os gestos, as mãos, a voz. Por isso quase não falava. Vai ver que era simplesmente uma questão de aversão às palavras.

Mas agora o que mais queria era gritar. Quer fosse para o vizinho abaixar a merda do som ou para mandar a tese para a puta que  pariu. Não, na melhor das hipóteses a melhor dúvida era decidir se ficava deprimida ou desesperada. Mas precisava se recompor. Sua mãe ligaria dali a duas horas.

Nota da autora: Sara, a continuação é com vc. Construção coletiva. A Layla em seguida. Verde Oliva rules.

Procura-se

janeiro 27, 2011

Tudo parecia normal. Acordei na hora de sempre, com o sono e a disposição de sempre para ir ao trabalho. Levantei da cama e coloquei os trajes típicos de uma manhã de seca para descer com o Bento. Trajeto de sempre. A única coisa que normalmente muda é o lado pelo qual se começa o trajeto. Hoje optamos pelo da direita. Era o mais deserto. Tudo indo bem. Alguns encontros ocasionais e amistosos com outros cachorros, as paradas nos arbustos, nada que me desse a entender que algo diferente estava prestes a ocorrer. Talvez o Bento suspeitasse, ele foi o primeiro a perceber.
 
Depois de seu breve encontro com suas cheiradas convencionais  na Juanita – uma basset hound idosa – fomos em direção a nossa portaria. Já estava quase entrando quando o Bento se voltou e começou a puxar a coleira no sentido contrário. E eu pensei: o que será que a Juanita ainda quer com o Bento? E quando me voltei, lá estava ele, em posição de U invertido, todo arrepiado. Não pestanejei e puxei o Bento para dentro. E, por algum motivo, fui correndo olhar pela janela aquele gatinho. Lá estava ele, não mais assustado. Sentado na frente da entrada de serviço. Como um gentleman de cores rajadas: branco e dourado. Um fofo. Não saberia dizer a idade. Não entendo muito de gatos, afinal eu tenho um cachorro. Mas se fosse para chutar diria que ele ainda não tem um ano.
 
Subi e tentei não pensar mais nele. Tomei banho, me arrumei. Ah, detalhe importante, o café da manhã de hoje foi na padaria. Sabe como é, né? Preguiça de ir ao supermercado. Vontade de comer algo mais gorduroso com suco natural. Por mais que focasse toda minha atenção na escolha de itens banais: com que blusa eu vou, levar maçã ou mexerica, o bichano voltava aos meus pensamentos. 
 
Desci para pegar meu carro. Ele não fica na garagem. Abri a porta, olhei para para os dois lados e nada. Respirei aliviada. Mas não resisti e o chamei. Não é que ele veio? Todo delicado, devagar. Eu fiquei imóvel. Sei lá, gatos arranham. E se ele tiver raiva? Ele se aproximou. Primeiramente sentou-se do meu lado. Depois veio  andar entre as minhas pernas. Acho que ele gostou de mim, pensei. Sem saber o que fazer, tentei parecer  uma pessoa gentil. Ofereci a ela a única coisa que podia ser oferecida: uma maçã. Ele continou mais interessado na minha calça jeans do que no presente ora oferecido. Cachorros gostam de frutas. Pensei se o problema era a nacionalidade da maça, argentina, mas gatos são tão desapegados que não devem se importar com futebol. Não duvidei e peguei a a fruta de volta. Ele não devia entender muito de antropologia mesmo. Ou deveria eu prestar mais atenção nos radicais das palavras.
 
Eu movia e ele me acompanhava. E o que podia fazer? Não podia levá-lo para o meu apartamento. O Bento estranharia o pequeno peludo. Resolvi estabelecer um pacto. Ele me esperaria até a noite e eu arrumaria alguém legal para tomar conta dele. Não sei se ele entendeu muito bem. Nesse momento, uma outra pessoa passou, indo para a outra portaria, e ele tentou estabelecer alguma troca mais vantajosa . Aproveitei esse momento e fui para o meu carro para não me sentir tão culpada. Mas o recado é esse: gato bonitinho, branco e dourado, que não entende nada de antropologia, mas tem predisposição para exercícios de yoga – estava, nesta manhã, na frente da 102 norte Bloco D, na entrada de serviço mais próxima da garagem, esperando encontrar pessoas interessantes.
 
Ah,  um detalhe importante: ele atende por Sebastian.

Criar cabritos

janeiro 23, 2011

manias estranhas Passava dias e dias sem abrir seu correio eletrônico, mas, de repente, quando já estava na cama preparada para dormir, era dominada por um pensamento obsessivo: tenho que ler meus emails, tenho que ler meus emails… Na realidade era algo bem pessimista que sentia. Talvez por viver longe da maior parte das pessoas que lhe eram importantes. Ela queria ter certeza que nenhuma desgraça havia acontecido, para assim poder dormir em paz. O que não faz muito sentido. Afinal, é melhor ir dormir em paz e deixar potenciais notícias desastrosas para o amanhecer. Mas quem disse que ansiedade crônica espera por amanheceres?
Hoje, mais uma vez, não havia nenhuma tragédia a espera na caixa postal. Porém,  recebeu algo que a fez pensar na sua (des)graça de querer ser escritora. Uma amiga lhe escreveu perguntando por que a decisão de se dedicar profissionalmente a escrita. A primeira coisa que veio à sua cabeça meio paranóica foi: “Será que ela tá me perguntando isso por que na realidade pensa que eu não tenho talento? Ou por que eu publico quase nada do que faço?”
Interpretou a pergunta na defensiva porque sabia que seu comportamento não condizia com o de uma escritora: ainda escrevia muito pouco. Mas, para conseguir dormir, teve que escrever alguma resposta-rascunho em seu diário. A qual foi a seguinte:

Eu decidi ser escritora porque não encontro nada que combine com meu ideal de realização profissional. Eu decidi ser escritora porque acho que, acima de tudo, não consigo fazer outra coisa melhor do que escrever. E se já escrevo mal, imagina como faço as outras coisas. Uma catástrofe (no sexo nem tanto!) ! Eu decidi ser escritora porque se eu não virar escritora, terei que virar puta. Ou uma “puta da economia” – vendendo todo dia 8 horas de meu tempo por um trabalho que não gosto e que provavelmente não vou fazer bem – ou uma puta-puta”. Mas isso não funcionaria para uma filha de beata, sobrinha de padre e ministros de eucaristia! hahaha
Finalmente, eu acho que decidi ser escritora porque ainda não virei uma escritora mesmo e ainda não perdi minha última esperança de profissão.
Não. Minto. Criar cabritos é uma profissão também, né? Taí, é isso! Eu decidi ser escritora porque ainda não decidi criar cabritos!

E fechou o diário, com o futuro aberto.

Ovelhas pastam felizes, sem medo do abatedouro.

Idéias e trabalho coletivo

janeiro 13, 2011

Faz um tempo que eu estou com uma idéia de texto na cabeça, mas não consigo parar para desenvolvê-la  e aí ela fica aqui me perturbando, pentelhando meus dias. Vou colocar aqui e, de repente, numa obra coletiva, ela finalmente venha ao mundo.

A idéia nasceu em uma das semanas em Brasília, lendo o Correio. Nasceu do incômodo com a formação do ministério da presidenta. Com a sucessão de nomes esquisitos  e do leilão dos interesses públicos. A força do PMDB, apesar de seu interesse básico ser defender os valores retrógrados da política republicana brasileira. A manutenção de ministros, como o Fernando Haddad, que eu não entendo bem o que dinamizaram nos setores em que atuaram. “Seria bom ter a perspicácia do Machado de Assis para escrever sobre esse momento da política brasileira”, pensei eu… e foi assim que a idéia nasceu.

O texto deveria contemplar uma série de figuras comuns da nossa política e mostrar o ridículo que estamos vivendo. Melhor seria se conseguisse também fazer um vôo sobre as classes altas e médias, os miseráveis, as pessoas viciadas em internet (blogs, facebooks e afins)…

Parei por aqui. Falta muita coisa para que a idéia se articule. Talvez falte ler mais Machado de Assis ou passar mais tempo maturando a idéia… Joguei a bola para a rede, vamos ver no que vai dar! (Às vezes eu tenho expectativas positivas com a internet…)

Segunda Segunda

janeiro 10, 2011

Jesuissssssssss di Deux, 2011 não é pouco não. Gente, esse ano é pra comemorar os 10 anos de amizade, hein! Nao acredito que já faz uma década que éramos calouras (ou semi-calouras para os húngaro-candangos!). Mas não quero ficar melancólica aqui, senão começo a chorar. Xuá, xuá!

Essa segunda segunda-feira do ano tem cara de primeira, não? Meu ano psicológico começou hoje. E, pra mim, segunda é dia de começar algo. Por isso, vim aqui dá um sinal de vida e compartilhar minhas descobertas de fim de ano com vocês.

Percebi que os dias entre Natal e Réveillon parecem não pertencer a ano nenhum.  São interim equecido. Dias sem rumo, encurralados entre o acontecido e o estar por vir. Ninguém espera algo deles. Mas eles são dignos, muito dignos. Seguem em frente, tranqüilos com a existência, sem pedir palmas. Enfim, dias com egos domados. Daí descobri meu paradoxo, origem de muitas culpas, tristezas e frustrações: acordo Natal, almoço Réveillon, janto Natal, acordo Réveillon, durmo… ai já viu,  entretempos de sempre…

Mas hoje é segunda. Minha primeira segunda. Dia de começar a escrever algo, qualquer coisa, de cortar as unhas, voltar a academia e a usar fio dental (nos dentes!rs). Quero uma terça de hálito novo e bafo de alegria!

Feliz ano novo, Cris, Layla e companhia (s)!

Ano novo, vida nova

janeiro 3, 2011

E aí? Como foi que 2011 chegou para vcs? O meu teve muita chuva, festas com brigadistas, caipiroskas e mais chuva. Acho que a Layla trouxe com ela a garoa de São Paulo. O problema é que a Layla já foi e a garoa ficou. Podia ter sido o contrário.

Mas vcs estão com muitos projetos novos? Tipo entrar de dieta, começar a praticar um esporte, parar de fumar e essas coisas? Eu tenho alguns. Na verdade o primeiro me apareceu hoje na hora do almoço. Parar de tomar coca-cola. Será que eu consigo? A coca-cola entrou na minha vida firme e forte há quatro anos. Resumindo, já anda e fala sozinha. A minha vontade de coca-cola tem vontade própria. 

O trabalho é o mesmo do ano passado. Só que agora uma duende vive na minha mesa. Junto com o Seu Madruga e a Popis. A gente se diverte do jeito que pode, né? Na verdade ainda estamos acéfalas por aqui. Muita coisa em suspenso. Ainda.

Mas e vcs desse outro lado? Planos, traumas, realizações para 2011? Me conta aí, vai. Isso aqui tá ficando muito parado. Já tá até me dando vontade de espirrar…..