Palavras alheias

novembro 9, 2010

Acho interessante a palavra “alheia”. Na minha vã ignorância identifico isso como uma coisa bem nordestina. Lembra minha mãe gritando: “não mexa nas coisas alheias, menina!”  Esse post é sobre palavras alheias, particularmente sobre começos de livros que fazem você imaginar a cena e querer desvendar ou viver o que aquela história quer dizer. Adoro começos de livros que me encafifam…

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou” Clarice Lispector, A Hora da Estrela.

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.” Graciliano Ramos, Vidas Secas.

“Jose Palacios, su servidor más antiguo, lo encontró flotando en las águas depurativas de la bañera, desnudo y con los ojos abiertos, y creyó que se había ahoagado. Sabía que ése era uno de sus muchos modos de meditar, pero el estado de extásis en que yacía a la deriva parecía de alguien que ya no era de este mundo.” Gabriel García Márquez, El general en su laberinto.

“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.Macondo era entonces una aldea de veinte casas de barro y canãbrava construidas a orilla de un río de águas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos. El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo.” Gabriel García Márquez, Cien Años de Soledad.

“No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada.” José Saramago, As intermitências da morte.

Tem um outro do Saramago que eu gosto muito, mas é um começo de uma página inteira, aí fica cansativo pr’eu copiar. É o começo do Ensaio sobre a cegueira, o primeiro livro que eu li dele, mas eu nunca imaginaria que o motorista cego seria um japonês num carro branco! Também gosto do começo das Memórias Póstumas do Brás Cubas, a digressão sobre o autor defunto ou defunto autor, não coloco aqui pela mesma razão…

Deu pra imaginar algum dos cenários? É legal, né?!

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5 Respostas to “Palavras alheias”

  1. Cris Q said

    Eu imaginei o seu primeiro parágrafo.

  2. Cris Q said

    A parte da sua mãe. Não consigo imaginar a palavra encafifada, o verbo então, nem se fala….

  3. Vinicius said

    Seu post foi muito recreativo e agradável. 🙂
    Um começo bem menos interessante que comum é: “eu não sou de encaminhar essas coisas mas se você tem coração ou consciência ou ética, encaminhe para outras 148,5 pessoas…”

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