Coelhinhos não têm hora para dormir

outubro 18, 2010

Quase toda criança aprende desde cedo que há muito de injustiça nesse mundo. Uma das maiores é serem obrigadas a ir cedo pra cama quando o que elas mais queriam era ficar de olhos arregalados durante toda a infância. Eu acredito que esse instinto de viver a infância tão intensamente tem um motivo bastante lógico: comparada com toda a vida de adulto, a infância é curta demais. Por isso a sede infantil de vivê-la bem acordada.

Daí eu entendo melhor ainda porque quase todo adolescente torna-se um chato de galocha. Eles estão frustrados pela despedida do mundo de criança e já prevêem as durezas do mundo de adulto. Certo dia, ouvi um escritor (infantil) dizer que a infância era algo terrível, duro. Eu concordo. Mas, para mim, o terrível da infância é saber, por toda a gente grande ao seu redor, que ela tem prazo de validade. Eu me lembro até hoje (no alto de meus 29 anos:-)) que chorei aos 8 por meus seios terem começado a crescer, desesperei-me aos 10 pelos aumentos dos pêlos pubianos e rezei até o fim dos 11 anos para que Deus me desse mais tempo de criança. Foi quando minha menstruação chegou. Todo mundo comecou a me chamar de mocinha e eu percebi que o Senhor das minhas orações não tinha nada de onipotente, nem nunca esteve presente para salvar a minha infância. Ele só pensava em aumentar o seu rebanho. Queria adultos férteis. Se as horas eternas de criança não foram respeitadas pela ânsia divina em me colocar num corpo de mulher, para que me servia um Deus desse? Fui ficando cada vez mais irritada com ele. E quando descobri nas missas dominicais que sexo antes do casamento seria pecado, somente o coito procriativo permitido, uma lista enorme de proibições (principalmente para mulheres) … daí abri mão de vez de religião. Eu não seria escrava procriadora de Deus nenhum.

Pode até parecer que me tornei uma adulta traumatizada pela infância perdida, com problemas relacionados a aceitação do corpo, do sexo etc. Nananinanão! Assim como me senti obrigada a me despedir da infância, desobriguei-me das castrações da fé católica apostólica romana. Isso permitiu-me curtir meu corpo de adulta, com todos os seus peitos, pêlos e prazeres. E se de alguma forma fico nostálgica daquele tempo que parecia eterno, compenso-o com escrever. Quando escrevo, o relógio desaparece. Somos só eu e minhas impressões de acordada. Antes de escrever para criancas, eu escrevo para a crianca em mim, que continua resistindo aos tiques dos ponteiros até tarde da noite.

Mas claro que algumas sequelas ficam. Quando me perguntam, por exemplo, que animal eu seria num livro infantil. Respondo sem hesitar: Coelho. Pois coelhinhos não têm hora para dormir. E coelhões não conhecem pecado!

 

Artista plástica: Susanne Benninghoff-Lühl

 

 

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Uma resposta to “Coelhinhos não têm hora para dormir”

  1. Layla said

    Ainda sinto saudades da minha infância, meio que uma síndrome de Peter Pan. Só queria poder segurar os tempos do relógio para poder viver sem pressa de querer a próxima sensação. Experimentar tudo até o fim, igual quando a gente tentava economizar o chandelle ou chambinho – dava uma molhadinha na colher, aí experimentava e valorizava a iguaria… valia por uma meia hora de satisfação do paladar! Sempre quis ser passarinho, voando e observando, sem contas a prestar. Vamos montando nossa fauna prum futuro livro infantil…

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