A questão do aborto: contra os retrocessos

outubro 15, 2010

Olás,
Não estou muito envolvida na discussão eleitoral, principalmente porque não quero me posicionar a favor de ninguém que está concorrendo. Na verdade, me posiciono contra todas as opções. No entanto, visto que a discussão está chegando ao mais baixo nível já esperado em questões que são muito importantes e me tocam pessoalmente, acho que é preciso me posicionar – não em relação a alguma candidatura, mas em relação a temas.
É um absurdo enorme a redução do debate da campanha à questão do aborto, não porque não seja importante, mas pelo uso que se tem feito dela. A disputa para decidir quem é mais “pró-vida” está atropelando todos os avanços minimamente progressistas que tivemos até hoje, inclusive a separação entre religião e Estado.
Infelizmente, ambas as frentes que disputam a eleição presidencial vêm desconsiderando a seriedade de questões sócio-identitárias e baseando-se em discussões próprias da moralidade cristã. A igreja não é partido. O Estado é laico. Discutir políticas públicas em cima de argumentos religiosos em uma República é contra-producente, já há alguns séculos. Se fosse pela igreja católica, ainda estaríamos vivendo no feudalismo. Eu não estou nem um pouco interessada na “sólida formação cristã” de ninguém que possa governar o meu país. Em um Estado laico, cuj@ governante deve governar para tod@s – ateus e atéias, agnósticos e agnósticas, cristãs e não-cristãs, religios@s e não-religios@s, etc), o governo deve ser PARA TOD@S – inclusive para as mulheres pobres que acabam abortando no açougueiro.
Sou a favor de várias coisas: dos direitos LGBT, de reconhecimento para as minorias políticas, da redistribuição de renda, de mais mulheres no poder, da descriminalização do aborto, entre outras questões que, pra mim, deveriam estar na ordem do dia de maneira séria, não como artefato de espetacularização obscurantista, como está acontecendo com o (não)debate sobre a criminalização do aborto.
Não me importa se o Serra é cristão ou se a Dilma não é cristã, ou vice-versa (assim como não me importa a cristandade da Dona Weslian). Não me parece que nenhum dos dois está levando a sério esse debate que deveria ser central pra um país que se considera uma república democrática. O debate atual, aliás, está indo na direção contrária a resoluções de outros países que brasileiros costumam fazer piada, como a Argentina, cujo Congresso aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo e se posicionou na garantia de ampliação da cidadania pra uma parte significativa de sua população. Ver a falta de seriedade desse debate no meu país me deixa muito triste.
Abaixo encaminho uma petição realizada por algumas/ns professoras/es, atentando para a questão do aborto e da sua utilização praticamente criminosa nessas eleições. Por favor, quem concordar comigo, assine e repasse aos colegas. Quem não concordar, ok, ignore, mas pode me escrever para debatermos.
Abraço,
Danusa Marques
Professora Assistente do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília – UnB
Doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
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3 Respostas to “A questão do aborto: contra os retrocessos”

  1. Layla said

    É muito frustrante ver questões importantes de empoderamento de minorias políticas serem tratadas como dogmas cristãos…

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