Rio, I miss you

outubro 27, 2010

O rio da minha infância, onde eu aprendi a nadar.
O rio da minha infância, que se esticava em seu leito, de janeiro a janeiro, com a calma dos monges.
O rio da minha infância está preso numa barragem, escravo de uma multinacional exportadora de batatas suculentas.

Anúncios

Melancolua

outubro 20, 2010

Petite tristesse pelo toque perdido
Tristeza alegre pel’O lua sentido
Adeus
Eclipse cardíaco

Quase toda criança aprende desde cedo que há muito de injustiça nesse mundo. Uma das maiores é serem obrigadas a ir cedo pra cama quando o que elas mais queriam era ficar de olhos arregalados durante toda a infância. Eu acredito que esse instinto de viver a infância tão intensamente tem um motivo bastante lógico: comparada com toda a vida de adulto, a infância é curta demais. Por isso a sede infantil de vivê-la bem acordada.

Daí eu entendo melhor ainda porque quase todo adolescente torna-se um chato de galocha. Eles estão frustrados pela despedida do mundo de criança e já prevêem as durezas do mundo de adulto. Certo dia, ouvi um escritor (infantil) dizer que a infância era algo terrível, duro. Eu concordo. Mas, para mim, o terrível da infância é saber, por toda a gente grande ao seu redor, que ela tem prazo de validade. Eu me lembro até hoje (no alto de meus 29 anos:-)) que chorei aos 8 por meus seios terem começado a crescer, desesperei-me aos 10 pelos aumentos dos pêlos pubianos e rezei até o fim dos 11 anos para que Deus me desse mais tempo de criança. Foi quando minha menstruação chegou. Todo mundo comecou a me chamar de mocinha e eu percebi que o Senhor das minhas orações não tinha nada de onipotente, nem nunca esteve presente para salvar a minha infância. Ele só pensava em aumentar o seu rebanho. Queria adultos férteis. Se as horas eternas de criança não foram respeitadas pela ânsia divina em me colocar num corpo de mulher, para que me servia um Deus desse? Fui ficando cada vez mais irritada com ele. E quando descobri nas missas dominicais que sexo antes do casamento seria pecado, somente o coito procriativo permitido, uma lista enorme de proibições (principalmente para mulheres) … daí abri mão de vez de religião. Eu não seria escrava procriadora de Deus nenhum.

Pode até parecer que me tornei uma adulta traumatizada pela infância perdida, com problemas relacionados a aceitação do corpo, do sexo etc. Nananinanão! Assim como me senti obrigada a me despedir da infância, desobriguei-me das castrações da fé católica apostólica romana. Isso permitiu-me curtir meu corpo de adulta, com todos os seus peitos, pêlos e prazeres. E se de alguma forma fico nostálgica daquele tempo que parecia eterno, compenso-o com escrever. Quando escrevo, o relógio desaparece. Somos só eu e minhas impressões de acordada. Antes de escrever para criancas, eu escrevo para a crianca em mim, que continua resistindo aos tiques dos ponteiros até tarde da noite.

Mas claro que algumas sequelas ficam. Quando me perguntam, por exemplo, que animal eu seria num livro infantil. Respondo sem hesitar: Coelho. Pois coelhinhos não têm hora para dormir. E coelhões não conhecem pecado!

 

Artista plástica: Susanne Benninghoff-Lühl

 

 

Paradoxo

outubro 18, 2010

Eu devo ser, provavelmente, a pessoa com mais casacos por metro quadrado

por aqui. E, com mais frio também.

Olás,
Não estou muito envolvida na discussão eleitoral, principalmente porque não quero me posicionar a favor de ninguém que está concorrendo. Na verdade, me posiciono contra todas as opções. No entanto, visto que a discussão está chegando ao mais baixo nível já esperado em questões que são muito importantes e me tocam pessoalmente, acho que é preciso me posicionar – não em relação a alguma candidatura, mas em relação a temas.
É um absurdo enorme a redução do debate da campanha à questão do aborto, não porque não seja importante, mas pelo uso que se tem feito dela. A disputa para decidir quem é mais “pró-vida” está atropelando todos os avanços minimamente progressistas que tivemos até hoje, inclusive a separação entre religião e Estado.
Infelizmente, ambas as frentes que disputam a eleição presidencial vêm desconsiderando a seriedade de questões sócio-identitárias e baseando-se em discussões próprias da moralidade cristã. A igreja não é partido. O Estado é laico. Discutir políticas públicas em cima de argumentos religiosos em uma República é contra-producente, já há alguns séculos. Se fosse pela igreja católica, ainda estaríamos vivendo no feudalismo. Eu não estou nem um pouco interessada na “sólida formação cristã” de ninguém que possa governar o meu país. Em um Estado laico, cuj@ governante deve governar para tod@s – ateus e atéias, agnósticos e agnósticas, cristãs e não-cristãs, religios@s e não-religios@s, etc), o governo deve ser PARA TOD@S – inclusive para as mulheres pobres que acabam abortando no açougueiro.
Sou a favor de várias coisas: dos direitos LGBT, de reconhecimento para as minorias políticas, da redistribuição de renda, de mais mulheres no poder, da descriminalização do aborto, entre outras questões que, pra mim, deveriam estar na ordem do dia de maneira séria, não como artefato de espetacularização obscurantista, como está acontecendo com o (não)debate sobre a criminalização do aborto.
Não me importa se o Serra é cristão ou se a Dilma não é cristã, ou vice-versa (assim como não me importa a cristandade da Dona Weslian). Não me parece que nenhum dos dois está levando a sério esse debate que deveria ser central pra um país que se considera uma república democrática. O debate atual, aliás, está indo na direção contrária a resoluções de outros países que brasileiros costumam fazer piada, como a Argentina, cujo Congresso aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo e se posicionou na garantia de ampliação da cidadania pra uma parte significativa de sua população. Ver a falta de seriedade desse debate no meu país me deixa muito triste.
Abaixo encaminho uma petição realizada por algumas/ns professoras/es, atentando para a questão do aborto e da sua utilização praticamente criminosa nessas eleições. Por favor, quem concordar comigo, assine e repasse aos colegas. Quem não concordar, ok, ignore, mas pode me escrever para debatermos.
Abraço,
Danusa Marques
Professora Assistente do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília – UnB
Doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG

Tá verde?

outubro 8, 2010

Uma coisa rápida. De minuto mesmo. Até porque não estou hoje para muitas teorizações. Mas o que seria do Brasil com um possível governo da Marina? Se, para decidir quem eles apoiarão no segundo turno, já contamos com uma “rebelião  interna”, imagina o Partido Verde e a Marina administrando o Brasil…. Parece que o amor pelas árvores ainda não amadureceu o suficiente, né?

Pataki, acho que precisamos de mais poesias nesse blog. E, falando nisso, parabéns pra você.  Hasta luego!

O umbigo e a política

outubro 6, 2010

Fiquei sabendo por meio de uma triangulação antlântica ou via skype que esse blog está muito político. E que é melhor falar do umbigo. Eu concordo. Não sei se vocês já perceberam, mas eu só consigo escrever sobre eu mesma. Sempre uso a 1a pessoa do singular. Eu, Eu e Eu.

Nunca me considerei uma pessoa politizada. Eu não sei o que é a lista do PDOT, eu confundo as pessoas do mensalão com a cpi dos sete anões, eu não sei quem são os ministros do STF e muito menos como eles votam. Ignoro as correntes ou cisões  do PT. Eu não sei muitas coisas. Mas assim, eu sempre me pautei mais pelo que eu não sei do que pelo que eu sei.(Talvez assim eu seja mais politizada).

O que eu sei é que não dá para ler e ver algumas coisas e ficar calada. Ou achar alguma coisa, só porque está em voga, ou porque a maioria acha. Ultimamente eu tenho estado cada vez mais distante da maioria. Ou do que a maioria pensa. Por exemplo, todo mundo fazendo um escarcéu por conta do Tiririca.

Realmente, é triste existir grandes indícios de que ele não saiba ler e escrever. Mas ele ter tido mais de um milhão de votos quer dizer alguma coisa, não? Se a política está uma palhaçada, o Tiririca é a conclusão mais coerente, não concordam? Para mim, o problema não é eleger palhaços, mas eleger e reeleger corruptos.

Mas esse post não era para ser de política. Mas de umbigo. O que eu quero dizer é que o umbigo é político. Não dá para desassociar uma coisa da outra. Simples assim. E que, por mais que estejamos escrevendo sobre nós mesmos, a política tá aí.  O pessoal é político, logo, meu umbigo também é. Dançar Lady Gaga é político – confesso que fiz isso na última sexta-feira e não me arrependo -,  comer carne é político. Até mesmo raspar ou não as pernas, como a gente viu aí embaixo, é político. Em resumo, nossos corpos são políticos.

Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. O umbigo ser político é muito diferente da política do umbigo, entendem? Mas enfim, quero deixar claro que todos os umbigos são mais que bem vindos por aqui.

Nao, nem

outubro 4, 2010

Preguiça de sonhar
Cansaço profundo
E se eu me chamasse Raimundo?

Hoje o sol me cobriu com a mão esquerda
E se eu me chamasse Lêda?

Não. Minha luz dormiu todo o dia
E se eu me chamasse Maria?

O inverno invadiu meu tempo
E se eu me fosse com o vento?

Nada

Hoje o dia não tem cura, nem Sara

Ih!… deu empate.

outubro 1, 2010

Não acho certo impedir alguém de fazer alguma coisa sendo que essa pessoa ainda não foi condenada. Não é justo, entende? Eu também sei que não é justo um cara como um Roriz ser governador. Mas é uma questão de pressupostos.  A lei tem o foco errado, apesar do resultado poder ser semelhante (ou não). O problema é o próprio judiciário. Já que falam de tantas reformas porque não colocar mais uma na pauta? O que a lei faz contra aqueles que usam o judiciário a seu favor?

No Maranhão, além dos tribunais homenagearem o Sarney, as decisões dos juizes cuidam para que nada do interesse desse renomado político seja prejudicado. Que tal iniciar um processo contra um provável desafeto político e evitar que ele concorra? Nada demais, nem precisa se provar a acusação.

Desde a época em que vieram para que eu assinasse o projeto do Ficha Limpa eu me recusei. Por favor, não confundam. É claro que eu acho um absurdo o currículo de vários de nossos políticos e o fato deles, mesmo assim, poderem se candidatar, o ponto não é esse.  A intenção da lei é boa, mas o modo como ela foi arquitetada, a meu ver, não.

Na verdade, ela me parece meio maquiavélica, sabe? No sentido de os fins justificarem os meios – apesar de nunca ter encontrado essa frase no Príncipe. Mas assim, para onde vai o princípio da segurança jurídica se elaboramos leis capengas para termos efeitos no curto prazo?

Eu concordo que em algumas ocasiões ações de curto prazo – que não são suficientes para acabar com o problema, são necessárias. Pegue o Bolsa Família, por exemplo. Ou mesmo a lei de cotas. Para mim, não tem nada de errado em dar dinheiro às pessoas que não tiveram as oportunidades que eu tive. Afinal, para essas pessoas exercerem sua condição cidadã, elas precisam, de fato, comer. E é exatamente essa a proposta do Bolsa. Da mesma forma como eu não acho justo ter que esperar três gerações para que tenhamos negros nas universidades, logo, essas ações têm sentido.

Mas essa lei é diferente. Ela não foi feita para ser uma medida paliativa. Ela foi feita para ser eterna. Da mesma forma que alguns governadores querem ser. Mas não sei. Talvez eu precise saber mais direito.

Será que vale mesmo você impedir alguém que ainda não foi julgado de alguma coisa? Talvez  fosse melhor a gente simplesmente ter uma justiça mais célere. E, porque não, mais justa.

Contudo, a minha discordância com a lei não significa que a não decisão do STF justifique-se. A não decisão é um problema. E dái voltamos ao começo desse post, ou melhor, começamos esse post agora.

Deve ser bem esquisito você saber que daqui a um tempo vai decidir os rumos de uma nação. Imagina dormir num dia pensando que amanhã você vai poder definir prazos para certas práticas odiosas num país que já cansou de viver do futuro no meio da organização social do passado… Mas se a sua escolha de vida foi decidir o que é e o que não é justo, a situação é bem outra. Se você se preparou para ser juiz, se quis ter o poder de decidir, esse friozinho na barriga é parte do prazer de dar a sua valiosa opinião. Se na hora do vamos ver, você tem receio de definir, aí alguma coisa tá errada. Certamente devem ser as razões para decidir pela não decisão.

É como se o atacante estivesse na boca do gol, goleiro vencido só faltando o último tapinha na bola para a conquista do campeonato. Aí o cara pára e fala: Semana que vem eu decido com que perna chutar… esperem.

A confusão de dizer se vale ou não ser ficha limpa vai ficar para depois das eleições. Por enquanto, alguns políticos escolados na legislação brasileira, disposta a abrir buracos, já deram jeito de seguir concorrendo… Não é mesmo, casal Roriz?