Mulheres, pernas e o Pondé

setembro 27, 2010

Imagens dizem muito, na maioria das vezes dizem tudo o que é possível dizer quando a gente fica pasma com o que vê ou o que lê. Lembra do esquema das violências cotidianas? Temos mais um exemplo…

Sou bastante feliz de não conhecer o senhor Pondé.  Não gosto de quem usa seus espaços de poder para propalar o obscuro e defender o absurdo. Li dois textos desse colunista da Folha e a única coisa que pude concluir é que ele tem uma espécie de obsessão por pernas e por falar mal das feministas. Algo sem conteúdo para quem dá aulas em universidades e tem uma formação humanística. Sobre o jornal não há muito o que se opinar, às vezes é melhor nem ler – é claro que dá para não ler….

Concordo com a Isabel Allende (que não conheço direito, mas vi uma história contada por ela que me fez achar que usa bem os espaços de poder que ocupa) quando ela diz que não faz sentido dizer que as lutas das feministas não têm mais razão de ser – sobretudo para nós, mulheres ocidentais. Muitas das mulheres antifeministas que andam por aí só têm as suas declarações publicadas porque se reconhece que é válido ouvir o que uma mulher diz sobre qualquer assunto que não seja a vida doméstica. Escolher ser uma Barbie depilada –  e, portanto, bonita aos olhos de certos colunistas – é um direito. Da mesma forma que não querer se depilar ou adotar certos padrões sexistas de comportamento é um direito.Complicado é negar isso e dizer que há um novo movimento que quer deixar as mulheres feias… que novo movimento? e de onde vem a beleza?

Tem também a questão de que é melhor uma mulher de boca fechada e pernas abertas. Nessa “jóia” da literatura jornalística brasileira, Pondé declara abertamente que o feminismo cria ressentimentos nas mulheres… porque será? Não acho que isso seja plausível, mas digamos que sabendo de meus iguais direitos a qualquer outro ser humano e lutando para ter isso respeitado, eu me torne uma pessoa ressentida. Estaria enganada? Com o que será que eu poderia me ressentir neste mundo em que vivemos? Não é preciso nem soltar o jornal das mãos…

Pra não acabar parecendo muito ranzinza, vamos ver se amenizamos o tom do texto… Se as pessoas ficam mais bonitas sem os pêlos, posso ajudar nosso caro colunista a conhecer os milagres da depilação… SP tem salões de beleza a cada esquina e diversas modalidades de depilação, podemos até fazer uma vaquinha aqui no blog para deixá-lo lisinho só pra  aumentar o prazer em tocar as próprias pernas.

Um salve aos carecas!

Para saberem do que a gente tá falando:

Isabel Allende – http://www.ted.com/talks/lang/por_br/isabel_allende_tells_tales_of_passion.html

Pondé, “Restos à janela” – http://sergyovitro.blogspot.com/2010/09/luiz-felipe-ponde-restos-janela.html

Pondé, “Entre as penas de uma mulher, só boas emoções nos esperam” – http://lucianoalvarenga.blogspot.com/2010/06/entre-as-pernas-de-uma-mulher-so-boas.html

Resposta a Pondé

setembro 24, 2010

Eu sempre tive dificuldade de dialogar com pessoas com opiniões muito diversas da minha. Porque eu levo para o lado pessoal. Me dá raiva. Eu vejo como uma ofensa mesmo. A mim mesma.

Isso me dá muitos problemas. Daí a técnica que eu arranjei para lidar com isso é ficar calada. É mais uma técnica para não lidar do que para lidar, mas…

Outro problema que eu tenho é sempre duvidar mais de mim do que do outro. Por exemplo, se eu leio algum texto que considero muito confuso, a debilidade é minha e não de quem o escreveu. “Já estou muito cansada e a capacidade de concentração está baixa”; “essa pessoa tem um pensamento tão rápido que simplesmente pula alguns encadeamentos lógicos….genial!”, etc.

Outra dificuldade é quando o texto fala alguma coisa bem absurda. Na verdade essa dificuldade pode ser vista como um somatório das anteriores. Inicialmente eu penso que eu não estou entendendo o que a pessoa quis dizer. Releio. Em seguida, eu não acredito que ela simplesmente queria dizer aquilo. Deve ser algum recurso irônico. Chego até a pensar que o/a autor/a, na verdade, está querendo dizer o contrário do que realmente diz. Depois de todas essas etapas vem a raiva. Ou dependendo do dia eu desisto da humanidade.

O texto “Restos à Janela” do Pondé tanto me deu muita raiva como um retrocesso na minha vontade de ter filhos. Sim, porque colocar crianças nesse mundo, com um cara pensando desse jeito, é complicado. Não. O mais complicado não é pensar isso, mas não ter a vergonha de externalizar. Não. O pior de tudo é ter um jornal de circulação nacional que publica esse tipo de pensamento.

Utilizar exemplos da “natureza”, se apoiar no que é “normal” e associar a emancipação feminina com o fim da nossa espécie (Sim, é isso o que ele afirma em última instância), para mim, eram métodos de convencimento desacreditados. Ledo engano.

Assim, eu até entenderia um homem-branco-heterossexual reclamar disso tudo. Afinal, para ele é importante ter uma mulher em casa, depilada e preocupada com a vida cotidiana da família. Seria a opinião dele. Não concordo, mas cada um com os seus problemas. Mas agora, ele ainda vem querer dizer que tudo isso causa sofrimento às próprias mulheres? Tá achando que eu sou burra, né? Só pode.

A única coisa que eu posso fazer se eu tiver filhos é nunca matriculá-los na USP ou na Universidade de Tel Aviv ou na PUC (nessa eu já não matricularia mesmo) ou na Universidade de Sevilha, muito menos na de Marburg. Ah, e claro, só deixá-los chegarem perto da Folha em junho. Em respeito às festas populares.

Generalidades

setembro 20, 2010

Antes eu não tinha gostado muito do nome do blog. Achei que se era para pensamento de minuto tínhamos que usar o twitter, mas agora tenho que dizer que já estou gostando e por algumas razões. A primeira delas é que não se pensa apenas 140 caracteres em um minuto, dá para bolar muita coisa em um minuto, então não temos (uma das muit)as limitações do twitter. Se o pensamento é de minuto ele pode ser precário, sem todas as explicações devidas. Aí vai fazer muito mais sentido dizer esqueçam o que escrevi, afinal não se gastou um tempão teorizando e estudando pra dizer o que a gente vai dizer… ou seja, posso ser confusa! Tinha uma outra razão e eu esqueci…

Esquecer as coisas é uma das minhas características, mas não é um esquecimento para sempre, costuma ser momentâneo, e em geral não contempla ações que muita gente pensa insignificantes, mas que têm um peso enorme para mim. Sou um tipo de melindrosa social, as coisas que vejo cotidianamente não costumam tornar-se parte do meu dia-a-dia, assim, simplesmente. Por isso, acho que cotidianamente somos submetidas a um nível sem igual de violências, agressões vindas de todos os lados: o cara que acha que tem o dever de paquerar qualquer pessoa do sexo feminino, pessoas de todas as idades carregando no lombo quilos e quilos de lixo para vender, o ônibus lotado e as pessoas com as suas mochilas e bolsas acertando todo mundo, quem acha que está sempre mais atrasado que o resto, e sai cortando no trânsito de pedestres ou de carros, e fura fila, e faz um escarcéu,  gente que não responde e-mail. Nos últimos dias tenho me doído com a história de que muitas pessoas gastam quatro horas para voltar do trabalho para casa… Como naturalizar o fato de que a pessoa perde mais de um sexto do seu dia dentro de um ônibus (porque tem o tempo de ida), depois de ter gasto outros dois sextos trabalhando?! Ainda acredito que uma jornada de trabalho de duas horas seria o ideal… mas duvido que o trabalho dignifique as pessoas, ele brutaliza e ponto…

Já que estamos em clima de eleição: Sou contra a lógica schopenhauniana de viver e ver a vida! Desafio(?) e duvido diariamente do carma! Por um mundo diferente, mais indignação é a solução! Ou não…E viva o eco!!!

O problema do óbvio

setembro 18, 2010

Tem algumas coisas que são tão óbvias que nos fazem parar de pensar. Não sei se é bem parar de pensar. (Prefiro achar que eu continuo pensando). A gente se acostuma tanto com alguns fatos e pára de problematizar. Eu acho que é isso.

Por exemplo, porque a maioria dos carros são de 5 lugares? Quando normalmente os carros têm, no máximo, 2 pessoas. A gente anda diariamente com esse espaço vazio ao redor de nós. E pra quê?

Carros com 5 lugares fazem sentido quando a taxa de fecundidade é de 3 filhos por mulher. Atualmente a taxa de fecundidade do Brasil é de 1,9.  Então um carro padrão teria que ter 4 lugares. Isso considerando que os pais não são separados. Que compartilham o mesmo carro e que as crianças não vão de van para a escola. Viu?  Não faz o menor sentido.

Porque não temos a variedade de carros como de computadores, por exemplo? Tamanhos diferentes, funcionalidades diferentes e sei lá mais o que. Na verdade não entendo muito de computadores, nem de carros. Mas não parece sem sentido que todos (ou quase todos) os carros tenham 5 lugares e quando dirigimos só ultrapassamos pessoas dirigindo sozinhas? Duvido que os acompanhados dirijam tão mais devagar a esse ponto. Porque não termos carros para uma ou duas pessoas? Eles seriam menores, mais baratos e poderiam ser recarregados que nem o celular. Preferencialmente enquanto vc dorme.

Não é porque a idéia foi minha que eu a achei genial. Provavelmente alguém já teve essa idéia antes, mas ela também não encontrou um engenheiro para executá-la. Pensando bem, acho que já.  As motos já estão rodando por aí há anos. Especialmente “no Goiás”.

Uma questão de procedimento

setembro 17, 2010

Ah, esqueci de comentar anteriormente. Ou foi o otimismo inicial. Pode ser que tudo fique parado por um bom tempo também. Sabe como é, né? A não-ação é também um modo de se manifestar.

Não sei se cabe a mim falar de terceiros. Contar sobre a Margot – um alter ego que migrou para a Alemanha, ou sobre a gestação de idéias revolucionárias-monogâmicas.  

Enquanto elas não chegam – e com esse comentário não pretendo pressionar ninguém -, compartilho algumas impressões. Ultimamente tenho prestado mais atenção nas coisas. Sabe essa paisagem repetitiva das quadras de Brasília? Então, é isso.

Parece tudo igual, mas não é. Adoro perceber essas pequenas variações. É como tirar uma foto do mesmo local dias a fio no mesmo horário. Mas hoje aconteceu algo, de fato, diferente.

Saindo do meu carro, no estacionamento do trabalho, atrapalhada pelo fio do mp3 enrolado na bolsa – o que dificultava  minha mobilidade – dei de cara com uma figura. Um homem, por volta de seus 40 anos, com camisa social de manga comprida, carregando um porta terno e vestido com um short vermelho. Sim.  Sabe aqueles shorts de jogadores de futebol da década de 80? Era esse. Não sei se, para o homem que o vestia, o short tinha alguma outra função social, mas para mim era um short e, o pior, da mesma cor do meu tênis.

Seria isso um sinal? Uma marca que nos identificava? Eu não o vi se aproximando (maldita tecnologia!). Levantei a cabeça e vi o short e a camisa social a três palmos de mim. Sorri e lhe desejei um bom dia. Assim, sem pensar. Sem susto e  sem hesitação. Um bom dia simples e  direto. E ele fez o mesmo. Como se a coisa mais natural do mundo fosse aquela situação, saudações entre despidos e não despidos. Não sei muito bem ao certo o que tudo isso quis dizer. As coisas não tem necessariamente que dizer alguma coisa, tem? Só sei que esse foi o meu primeiro bom dia do dia. Não me arrependo e olha que não costumo cumprimentar estranhos. Pelo menos os vestidos.

Em Construção

setembro 14, 2010

Isso aqui é uma construção coletiva. Ou pelo menos pretende ser. Então como tudo que é democrático, tudo aqui é transitório e, porque não, demorado. Afinal, o consenso não é algo simples.

Feitas as devidas explicações, apresento-me. Escrevo de Brasília. Uma cidade há mais de 100 dias sem chuva. Sou uma pessoa mediana. À exceção da  altura. Tenho gostos óbvios: sorvete de creme e chocolate ao leite. Não gosto de excessos.

Outro dia desses tive que fazer uma biópsia – confesso que sou um pouco hipocondríaca -, o laudo dizia “processo inflamatório discreto”. Conclusão: até as minhas bactérias são tímidas.