6 anos

setembro 22, 2016

Esse espaço faz 6 anos agora em 2016,ou melhor, fez no último dia 14. Voltei a ele hoje porque me deu vontade de escrever. Voltei e passei os olhos por algumas publicações e me deparei com seu início em 2010.

Desde 2010 muita coisa aconteceu, desde a última publicação também. Um golpe.

Normalmente é a tristeza que me impele à escrita, ou a vontade de colocá-la para fora, mas, ao mesmo tempo, reli algumas coisas tão bonitas por aqui que fez parecer que a tristeza tem alguma função na vida. E o simples fato de pensar em escrever me acalma, mesmo que nenhuma palavra queira inaugurar o papel.

Hoje tudo está parecendo um pouco equivocado. O calçado, que até semana passada  só estava um pouco gasto, hoje tornou-se velho. O casaco parece mais folgado e com várias dobras a mais, sendo que hoje pela manhã ele parecia ser do meu número. O cabelo, de repente, ficou sem corte. Esse texto, por exemplo, está todo sublinhado de vermelho porque o idioma detectado pelo software é o inglês. A manhã, que estava tão promissora, transformou-se numa tarde vazia. As conversas iniciadas mais cedo procuraram outros interlocutores. E eu estou aqui tentando colocar sentido nessas palavras. Como se a vida tivesse que ter sentido.

Lá fora faz um calor dos infernos e eu aqui nesse ar condicionado que trava as minhas mãos. Com um crachá dependurado no meu pescoço esperando dar a hora de ir embora. E eu sei que a vida está TODA lá fora; que o que importa mesmo tá lá fora, se sentindo sozinha, questionando o sentido da vida, provavelmente com medo do que vem pela frente. E eu do lado de cá, questionando quase que as mesmas coisas…faz sentido?

Eu tive certeza de que vinha chumbo grosso pela frente quando vi os exames de sangue. Ela também deve ter percebido algo porque me perguntou se eu estava chorando. Não, eu não estava. Não ali, na frente dela. Em casa chorei quase que a noite inteira. Nem eu sei bem ao certo porque choro tanto nessas situações. Ou sei. Eu sei: é o medo de não dar tempo de pedir desculpas; de não dar tempo de perdoar; de perceber tarde demais o que verdadeiramente importa na vida; da vida passar e você não perceber;  medo de não dar conta; de continuar ausente; de não ser forte o suficiente.

Se ao menos conseguíssemos compartilhar nossas solidões.

Sucesso

maio 5, 2015

Ultimamente tenho me apegado a uma frase que um astrólogo me disse há uns tempos. Que eu teria sucesso da metade da minha carreira para frente. Funciona como uma espécie de alento para esses dias em que nada parece fazer sentido no mundo do trabalho.

Hoje, conversando exatamente sobre isso, cheguei a conclusão de que talvez o alento se deva mais a minha definição de sucesso do que ao astrólogo em si. Para mim,  sucesso é a ausência dessa agonia de ter que dar conta de tudo.

De toda a forma, eu ainda não cheguei nem na metade. Sigamos.

Gente que bebe chá

janeiro 24, 2014

Detesto gente que bebe chá no trabalho. Sim, faz diferença. A lógica do serviço público é servir café aos seus integrantes. Café. Daí sempre tem aquelas pessoas que insistem: um chá, por favor.  Que ódio me dá.

Primeiro porque o chá tem essa coisa inglesa de superioridade. Enquanto todo mundo pede seu café em mímicas com o garçom – sim, duas gotinhas, só um pouquinho de açúcar – quase que pedindo desculpas pelo vício e tentando passar despercebido, a pessoa do chá gosta e fala em alto e bom som: você não poderia me trazer um chá? Ela, a pessoa que bebe chá, do cume da sua superioridade, explícita o seu desejo – sim, porque ela faz questão de mostrar a todos o seu hábito requintado – e o demanda à figura do garçom (esse resquício de aristocracia que ainda insiste em tempos modernos. Afinal, qual seria o problema de levantarmos as nossas bundas de nossas cadeiras e pegarmos o nosso próprio café na copa? Somos tão produtivos a ponto de não poder interromper nossas atividades? Conta outra). 

Daí em seguida vem a discussão filosófica. Qual o sabor? A pessoa que bebe chá lembra-se repentinamente que ela também deve escolher um sabor. “Hmm…hortelã? Erva cidreira? Capim santo ou camomila?” Olha no relógio, pensa no dia da semana e na aula de Yoga que faltou e, em seguida, dá a sua ordem de preferência. Pode ser hortelã e, se não tiver,erva cidreira. (Que diferença isso faz se todos são verdes, não?) Mas enfim, aguardam a reação do garçom para emendar logo depois: traz o que você tiver, sem problemas. E dá um sorrisinho amarelo. E, em seguida, ela – a pessoa que bebe chá – cruza o olhar pela repartição à procura de um olhar que esbarre com o seu para que, em tom de lamentação, confesse: “pai, perdoa-os porque eles não sabem o que fazem”. Sim, para elas – as pessoas que bebem chá -, além de ser um crime o chá ser deixado de escanteio assim, é um clássico sinal de subdesenvolvimento.  

Sem contar que ela – a pessoa que bebe chá – interrompe toda a dinâmica da reunião para que um desejo seu seja atendido. Isso não parece nenhum pouco egoísta pra você? Nós, a turma do cafezinho, parecemos ter um pouco mais de consciência coletiva nessas horas. 

 

 

Fico me perguntando se essas pessoas bebem chá em casa também. Acredito que não. 

(Não) Adaptação

outubro 3, 2013

Decidiu que precisava procurar um fonoaudiólogo. Não acreditava ser possível que pensassem que era estrangeira em sua própria terra. Devia ter alguma deficiência no aparelho fonador, alguma coisa que a colocasse como alienígena nas rodas de conversa.

Lembrou-se que era uma questão recorrente. A experiência em outros países tinha ferido seu orgulho de falante/estudante de línguas: os franceses a respondiam em inglês e os espanhóis fechavam o semblante tentando entender o que ela dizia. No fim das contas, se comunicou melhor com os italianos, por não falar nada de italiano e ter poucas expectativas de entender e ser entendida.

No entanto, esse vínculo frouxo (afinal, a linguagem não é a base de unidade dos povos?)  com a terra em que nascera e se criara era um indicativo de algo que lhe dava orgulho: a ideia de que não se enquadrava em nenhum lugar estava provada empiricamente, cotidianamente, todas as vezes que conhecia uma pessoa nova. Pensou em tirar partido da situação e inventar várias origens, até que se perdesse nas próprias histórias. Um dia podia dizer: “Sou venezuelana”; no outro, “Sou indiana, cheguei há dois anos no Brasil”. Ia ser bom, até elogiariam seu português.

Pareceu um bom plano. Definitivamente melhor do que ir treinar trava-línguas em algum consultório. No fim, decidiu que seria apátrida. Imaginou a cena: depois de uma breve conversa sobre um assunto qualquer viria a inevitável pergunta:

– De onde você é?

E a resposta, seca, sem explicações, nem constrangimentos, com um largo sorriso no rosto:

– Sou de lugar nenhum. Tenha uma boa semana.

Perder (se)

setembro 13, 2013

Uma arte

Elizabeth Bishop 
Tradução de Horácio Costa

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

– Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda – escreva tudo! – lembre desastre.

 

Escrever é um orifício

agosto 22, 2013

Bebia café com a intensidade de quem entornava um copo de vodca. Decidida. A que? Nem ela sabia. Mas esperava que a firmeza dos atos influenciassem de alguma forma a coerência do pensamento.

 
Sempre detestou se sentir perdida. Era uma constante em viagens: mapa na mão e passos firmes quando acabava de subir as escadas do metro. De qualquer metro. Já decidia nos últimos degraus se pegaria a esquerda ou a direita. Pouco importava a direção. O que importava era que não percebessem que ela estava perdida. E invariavelmente ela estava.  E sim, ela não pedia informações. No matter what. Ela não veio a essa vida a passeio. E detestava gente lerda na sua frente.

Acidente geográfico

junho 26, 2013

E como qualquer outro acidente, aconteceu sem avisar. De repente. Uma cratera no chão. E a gente que vinha andando assim….meio desavisados, acabamos assim….meio atordoados.

 

Técnicas de memorização

março 18, 2013

       Era uma vez, em um reino bem distante, um príncipe muito rico e, contrariando as estatísticas, muito legal. Ele era filho único e, para se lembrar disso, e sempre ter uma atitude condizente com tal condição (afinal, não teria nenhum irmão ou irmã para compensar os seus erros), tinha o número 1 pendurado em seu pescoço. Mas, como uma vida só é muito chata, não se separava do seu cachorro: Total, já de avançada idade.

      Cansado de viver em seu reino somente, ele decide fazer uma viagem para conhecer o  UNIVERSO. Durante as suas viagens, conheceu dois planetas bem diferentes. O primeiro tinha como principal elemento químico algo parecido com o que nós conhecemos por aqui como cimento. E, como consequência, as pessoas que ali nasciam eram ranzinzas, muitas vezes, brutas. Por outro lado, o segundo planeta era uma espécie de prisão. Todos os “Exs” que se comportavam mal (agora não me pergunte o que se enquadrava nessa categoria) iam para lá. Como castigo, comemoravam seus aniversários eternamente. Era uma espécie de tortura, o príncipe imaginava. 

         Cansados de viver dessa forma, os Exs tentavam fugir e vir para o planeta Terra. E alguns conseguiam. Mas, por alguma diferença de atmosfera, ao chegarem em nosso planeta, eles se espatifavam no chão. Mas eles não se afetavam. Entretanto, por conta da queda, nunca conseguiram se vincular da forma como gostariam a nós, seres humanos. 

         Eles carregavam uma espécie de mácula. Era invisível, mas todos sabiam que ela estava ali. Vocês nunca se depararam com alguma pessoa na rua e tiveram essa sensação? De que aquelas pessoas tinham algo de …… não confiável? 

         Bom, temos que ter cuidado com esses tipos de sentimentos, afinal, discriminação não se resume a isso? Para alguns, chegar a essa conclusão é realmente um momento de luz, de clareza. Faço questão constatar isso publicamente. 

       Mas provavelmente você está se perguntando o que aconteceu com o príncipe. Bom, o príncipe, com as desigualdades que viu e com as injustiças que presenciou, decidiu abdicar de todo o seu o dinheiro e de seu trono e dar ao universo um pouco mais de leveza. Tornou-se equilibrista.

 

         

 

       

         

      

Sócrates

janeiro 22, 2013

Quanto mais eu estudo, mais lógica parece a conclusão de que foi pura sorte já ter passado em algum concurso público.

Tenha certeza de que está sendo preconceituoso quando você pensar em usar:

– Eu não sou preconceituos@.

– Até tenho um amigo gay

– Adoro samba e trato a minha empregada super bem!

– Machista, eu? Ah, não leva a sério. Era só uma piada…

Em homenagem ao Luís Salem e a todas as pessoas não racistas que existem por aí!